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OpenXML - O que eu ainda não contei sobre o BRM

Colaboração: Jomar Silva

Data de Publicação: 03 de Novembro de 2009

Já faz mais de um ano e meio que escrevi sobre os fatos lamentáveis que ocorreram no último dia do BRM do OpenXML, quando a delegação brasileira foi impedida pelo coordenador da reunião (Alex Brown) de apresentar uma importante proposta que tratava do mapeamento dos documentos binários (legado) para o OpenXML. De forma resumida, a Microsoft alegou durante todo o processo do OpenXML na ISO, que a especificação era necessária, pois tinha sido baseada nos documentos binários, e por isso ela permitia uma tradução fiel destes documentos já existentes para o novo formato, garantindo assim o "resgate" das informações.

Durante o segundo dia do BRM, surgiu uma discussão sobre a divisão da especificação em múltiplas partes, e a discussão e responsabilidade de elaborar uma proposta sobre o tema ficou a cargo de um grupo de delegações (EUA e Brasil inclusos). Como saímos do Brasil com uma lista de assuntos que deveríamos tratar e um deles era o mapeamento dos documentos legados, entendemos que seria uma boa oportunidade para apresentar esta proposta e por isso, iniciamos uma conversa com a delegação norte americana (e com mais algumas outras) para ver o que pensavam sobre nossa proposta. Todos com quem conversei consideravam-na muito importante e por isso, colocamos a mão na massa e começamos a trabalhar na lapidação dela, para ser apresentada em conjunto com a delegação norte americana, pois eles consideravam que nossa proposta complementava a deles (nova divisão da especificação).

A principal justificativa que sustentava nossa proposta, era que este documento de mapeamento permitiria o desenvolvimento de aplicações para a conversão fiel dos documentos por qualquer desenvolvedor de software. Esta abordagem e a proposta que elaboramos contava com o apoio de diversos países, que tiveram acesso à proposta no quarto dia do BRM (postamos uma apresentação com os detalhes propostos no repositório de documentos que foi utilizado durante a reunião, que era constantemente visitado por todas as delegações). Passamos a noite do terceiro dia praticamente em claro, trabalhando nesta proposta.

Com a proposta devidamente transferida para o repositório de documentos, e portanto acessível a todos os participantes do BRM, o Deivi aproveitou o primeiro coffee break do quarto dia para ir conversar com o Alex Brown e pedir a ele a oportunidade para apresentarmos nossa proposta, pois gostaríamos de garantir que ela seria apresentada. O Alex Brown lhe disse que deveríamos procurar a delegação norte americana, pois entendia que nossa proposta se relacionava com a proposta deles, e após uma conversa com um delegado e o chefe da delegação norte americana, acordamos que eles iriam apresentar a proposta deles e em seguida nos passar a palavra para a apresentação da nossa, que era complementar.

A dinâmica da reunião foi feita de tal forma que rodadas de apresentação de propostas pelos países (não completamos sequer 3 rodadas), se intercalavam com rodadas de atualização dos trabalhos que estavam sendo feitos em paralelo (como a proposta de divisão da especificação).

Durante o quarto dia, conversei com delegados de diversos países que tinham lido nossa proposta e queriam manifestar apoio a ela. Seria um debate muito interessante e importante para a reunião, e para garantir que iríamos mesmo ter a palavra, eu fui conversar pessoalmente com o Alex Brown na tarde de quinta-feira sobre nossa proposta. Ele me disse que sabia o que queríamos apresentar, que entendia a importância do tema e que teríamos a nossa oportunidade. O dia terminou sem que pudéssemos falar, mas nos confortava o fato de que no dia seguinte (último dia do BRM), a delegação norte americana finalmente apresentaria a proposta deles e em seguida nos chamaria para complementa-la com a nossa.

O último dia do BRM começa com um backlog gigantesco de coisas para serem finalizadas, e foi uma manhã de muito trabalho. Pelo andamento dos trabalhos, começamos a ficar muito preocupados, e o que nos deixou mais tranquilos foi o fato de que a apresentação da delegação norte americana seria feita logo após o almoço. Quando a reunião foi interrompida para o almoço aconteceu um fato que para mim explica tudo sobre o OpenXML.

Um membro da delegação do Canadá, que também é membro do ECMA, veio até onde eu e o Deivi estávamos na sala, dizendo que queria conversar conosco. Ele estava extremamente nervoso e desconfortável, e iniciou sua conversa nos pedindo para que não apresentássemos a proposta sobre o mapeamento binário, pois o ECMA não tinha tal documento e o mapeamento não havia sido estudado por lá. Nos disse que a Microsoft era a responsável pela afirmação de "compatibilidade com o legado" e que se nós quiséssemos mesmo ter acesso ao documento, ele poderia nos ajudar a conversar com a Microsoft. Encerrou seu apelo nos pedindo para não fazermos tal pedido para o ECMA em público, insistindo para procurarmos a Microsoft. Enquanto tínhamos esta conversa, reparei que no fundo da sala estavam diversos funcionários da Microsoft e membros do ECMA nos observando com muita atenção e quando perceberam que eu tinha prestado atenção a este detalhe, dissimularam (foi uma cena ridícula).

O Deivi aproveitou a oportunidade para perguntar uma série de outras coisas a ele, como a suposta "garantia" de acesso ao legado e nenhuma das respostas era, nem de longe aceitável. Para encerrar a conversa, eu disse ao delegado canadense que sim, poderíamos atender seu pedido, desde que ele fizesse uma coisa: Criasse uma máquina do tempo, voltasse ao tempo do início das discussões no Brasil e dissesse ali, aos membros do nosso comitê (ABNT) que o mapeamento do legado jamais havia sido analisado e que portanto a suposta "compatibilidade com o legado" não passava de um artifício de marketing. Isso nos pouparia mais de um ano de trabalho, pois sem a "compatibilidade com o legado" o OpenXML nada mais é do que um overlap total do ODF (e portanto nosso voto seria decidido muito mais rápido). Se ele não pudesse atender a este pedido, nós sentíamos muito, mas iriamos apresentar a nossa proposta.

Ao término da conversa, fomos convidados para almoçar com Jean Paoli (Microsoft), convite feito pelo nosso membro da delegação que é funcionário da empresa (Gebara). O restaurante estava um caos, e nossa comida não chegava nunca. Isso nos forçou a cancelar o pedido e voltar (de estômago vazio) para a parte final da reunião. Na correria, não tivemos também oportunidade de conversar direito sobre a absurda proposta feita pelo ECMA. Eu estava nervoso e com fome.

Quando chegamos de volta na sala de reunião, a delegação dos EUA já estava iniciando a sua apresentação e nos preparamos então para fazer nossa apresentação. Quem apresentava pela delegação norte americana era Peter Lord, e ao término da sua apresentação ele convidou a delegação brasileira para apresentar nossa proposta, explicando que ela era complementar a proposta apresentada por eles. Eu já estava me levantando com o notebook na mão quando o Alex Brown não permitiu, dizendo que nossa proposta tratava de outro assunto e que precisaríamos dar prosseguimento à reunião, seguindo a ordem do dia. Diversos países protestaram, pois queriam ouvir nossa proposta, mas foram sumariamente ignorados. Foi aberta a votação e a proposta norte-americana foi aprovada. Seguir a ordem do dia significava que teríamos, em tese, ainda uma oportunidade para apresentar nossa proposta.

Durante o último coffe break do BRM, conversei com muitos delegados que estavam realmente preocupados em garantir nossa oportunidade de falar, e mostravam ainda sua intenção de apoiar nosso pleito.

A cada intervalo de discussão na parte final da reunião, alguma delegação se manifestava dizendo que queria ouvir a proposta brasileira (e era apoiada pelas demais). Quando estávamos muito perto do final da reunião, o Deivi pede a palavra e insiste mais uma vez no nosso pedido e desta vez o Alex Brown nos diz que infelizmente não temos mais tempo. Seguiu-se então uma rodada intensa de protestos de diversos países (um dos chefes de delegação presentes chegou a dizer que trabalha há décadas em normalização e que nunca viu um absurdo desse dentro da ISO). A indignação foi crescendo e gerou até um sério bate boca entre o Alex Brown e o chefe da delegação canadense (que nem de longe deve imaginar a proposta que seu colega nos fez, em nome do ECMA).

O resultado final é que não pudemos apresentar nossa proposta, e o mundo todo perdeu a oportunidade de ouvir, da boca dos delegados do ECMA a frase:

Nós não estudamos a compatibilidade do OpenXML com o formato binário legado.

Alguém aí tem alguma dúvida sobre o resultado final da votação, caso esta discussão tivesse ocorrido?

Até onde o delegado do ECMA iria, caso nós considerássemos a possibilidade de "negociar" com ele?

Por que o Alex Brown, mesmo sabendo da importância do tema, manipulou vergonhosamente a reunião para impedir que o Brasil apresentasse a proposta?

Acho que muitas destas perguntas ficarão sem resposta, mas eu realmente gostaria de entender o que motivou o Alex Brown a alterar de forma tão escandalosa o rumo (e o resultado final) da avaliação do OpenXML na ISO.

Desde que esta reunião terminou em Genebra, eu não passei sequer um dia da minha vida sem me perguntar: O que teria acontecido se tivéssemos apresentado a nossa proposta, e o que levou o Alex Brown a manipular de tal forma aquela reunião?

Agora que todos conhecem "os bastidores" da decisão tomada pelo Alex Brown de não deixar o Brasil apresentar a proposta do mapeamento de binários no último dia, mais alguns comentários são pertinentes.

Revendo tudo o que aconteceu durante o BRM, fica evidente a manipulação do andamento da reunião pelo Alex Brown, que ali foi o responsável por fazer cumprir uma agenda oculta da reunião. Basta uma simples busca em seu blog, em suas "contribuições" para o OpenXML na ISO e sua relação com o ECMA (e com seus membros), que vai ficar evidente a íntima relação que ele tem com o OpenXML (e isso é o mínimo que posso escrever sobre o tema).

Um exemplo de tal manipulação da agenda da reunião é bem claro e evidente: A delegação do ECMA (que até onde me lembro não é um National Body) teve 30 minutos em cada um dos dois primeiros dias do BRM para fazer discursos sobre "compatibilidade com o legado". Ou seja, a delegação Brasileira, que representa um National Body, não pode falar por falta de tempo, mas o ECMA teve assegurados 30 minutos em cada um dos dois primeiros dias de reunião para fazer seu discurso. Esta palhaçada só não continuou pois no final do segundo dia foi realizada uma reunião do Alex Brown com os chefes das delegações e o Deivi (chefe da delegação brasileira) apresentou um protesto contra estes discursos do ECMA.

Falando nos discursos do ECMA, um deles foi proferido por uma representante da "British Library", e menciono este fato pois tenho a impressão de que a tríade "British Library", Alex Brown e Microsoft talvez acenda algumas luzes para meus amigos da Inglaterra (e eu adoraria saber o que eles tem a falar sobre isso).

Não tenho dúvida alguma de que todo o BRM foi um grande circo, manipulado pela dupla ECMA/Microsoft para atingir seus objetivos e o mestre de cerimônia deles no picadeiro se chama Alex Brown.

Se algum outro delegado que estava naquela sala se lembrar de algum detalhe adicional que complemente o que acabo de relatar, por favor publique-o nos comentários.

Precisamos passar esta história a limpo e como prometi anteriormente, já que não tive resultado cobrando as instituições, quero agora ouvir a explicação diretamente das pessoas. Alex Brown é o primeiro (e achei interessante que ele me acusou de ser "mais uma vez parcial" outro dia em seu blog ... que acusação vocês acham que eu poderia, ou deveria, fazer contra ele?).

Jomar Silva é engenheiro eletrônico, pós graduado em gestão de projetos e desenvolvimento de sistemas e Diretor Geral da ODF Alliance Chapter Brasil. Atua no mercado de TI desde 1996, com ênfase no desenvolvimento de software em projetos de Pesquisa e Desenvolvimento para empresas do setor de Telecomunicações e Tecnologia da Informação. Atua ainda como "advisor" em padrões abertos junto a indústria de software. É coordenador do Grupo de Trabalho na ABNT que tratou da adoção do ODF como norma brasileira e membro do OASIS ODF TC (comitê internacional que desenvolve o padrão ODF).

Fonte: http://homembit.com/2009/10/openxml-o-que-eu-ainda-nao-contei-sobre-o-brm.html



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