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Linux-libre e o Dilema dos Prisioneiros

Colaboração: Alexandre Oliva

Data de Publicação: 05 de Julho de 2009

Apesar do dilema moral e dos riscos técnicos e jurídicos, diversas distribuições de GNU+Linux que valorizam a liberdade tendem a aceitar e distribuir o Software não-Livre integrado ao núcleo Linux, além de facilitar e encorajar seu uso. Por que decidem trair as liberdades de seus usuários e ajudar fabricantes de hardware a capturá-los?

Linux não é Software Livre

Quando foi lançado, em 1991, o núcleo Linux não era Software Livre. Tornou-se Livre no ano seguinte, através de relicenciamento, mas vem se tornando progressivamente não-Livre, ao aceitar "contribuições" de fabricantes de hardware que não têm interesse nem incentivo para respeitar seus consumidores.

Linux tem recebido Software não-Livre que roda em modo privilegiado (drivers) ou em dispositivos periféricos às CPUs principais (firmware), tendo acesso a todo o sistema: barramentos, memória, controladores de DMA e de interrupções, podendo assim causar toda sorte de interferência e problemas, desde acidentes como erros de travamento do sistema ou corrupção de informação, até problemas intencionais, como coleta e transmissão de informação do usuário.

Esses "contribuidores" ainda estabelecem armadilhas jurídicas. Alguns proíbem engenharia reversa, e fornecem documentação sob acordos de manter segredos (NDA). Alguns distribuem seus códigos, sob a GPL ou licenças compatíveis, mas sem fontes, induzindo à violação e portanto à revogação automática da licença do Linux.

Outros adotam licenças contraditórias: há um fabricante de cartões de rede que adicionou ao Linux um programa de 100Kb, na forma de código objeto, sob licença não-Livre e incompatível com a GPL (o que já é um problema), e depois adicionou outro driver, com mais 300Kb de código objeto não-Livre, que veda sua distribuição conjunta com software da mesma empresa que tenha sido disponibilizado sob licença diferente da GPL, como, por exemplo, o programa de 100Kb.

Não é irônico que Linux seja tomado por alguns como ícone maior do Software Livre, quando não o é? Por não ser Livre, todo mundo que distribui versões recentes do Linux está sujeito a ameaças jurídicas desses vilões, e, se já não perdeu, pode acabar perdendo o direito de distribuir, modificar e, no entendimento de alguns juristas brasileiros, até de executar o Linux!

Stux, bonitinho mas preso,
de Lewis Laë

Ficam assim usuários e redistribuidores à mercê dos caprichos dos fornecedores do hardware e suas amarras em Software não-Livre. Vale lembrar que, enquanto usuários poderiam preferir continuar usando o hardware que já possuem, mesmo com sistemas mais novos, os fabricantes de hardware estão mais interessados em que os usuários comprem seus novos produtos. Assim, descontinuam suporte ao hardware antigo, alegadamente para reduzir custos de manutenção, mas negam aos usuários e às distribuições a possibilidade de assumir essa manutenção, revelando sua estratégia de controle e aprisionamento.

Nasce o Linux-libre

Freedo, limpo e Livre, de
Burnaron e Rubén Rodríguez Pérez

Para tentar reverter essa tendência de poluição do Linux com Software não-Livre, e para propiciar a usuários e distribuições socialmente conscientes o núcleo Livre que necessitam, deu-se início ao projeto Linux-libre. Começou na distribuição gNewSense, passou a ser mantido pelo então mantenedor da distribuição BLAG, depois por mim, na FSFLA. Hoje é adotado por praticamente todas as demais distribuições com compromisso público de distribuir somente Software Livre: Musix GNU+Linux, Trisquel GNU/Linux e Dragora GNU/Linux, além de dyne:bolic e UTUTO XS que estão em processo de adoção.

Entre as distribuições mais populares, que até valorizam o respeito às liberdades dos usuários, mas não fazem disso um compromisso tão firme, a lógica que impera parece ser a do medo de perder usuários para as outras. Assim, quando uma adota um componente não-Livre, a fim de atrair uma determinada classe de usuários, as demais se vêem pressionadas para fazer o mesmo, sob o risco de perder potenciais colaboradores. Ao invés de perdê-los, perdem controle sobre o software que distribuem aos usuários, expondo a si mesmas e a seus usuários a riscos técnicos e jurídicos.

Curioso é que todos aqueles que possuem os dispositivos que precisariam daquele software para funcionar, sob controle do fabricante, já receberam uma cópia juntamente com o dispositivo, e poderiam facilmente obter outra diretamente do fabricante. Será que faz sentido esse comportamento das distribuições, de se poluírem e sujarem as mãos para ajudar a levar esse software a quem já o recebeu e já decidiu entre rejeitar esse software ou ceder ao fabricante o controle do computador?

Analisando o jogo

O dilema dos prisioneiros é uma observação curiosa da ciência econômico-matemática denominada Teoria de Jogos. Dois bandidos são presos por um crime grave, mas não há provas suficientes para condená-los à pena de 10 anos de prisão por esse crime, somente à penda de 1 ano, por porte ilegal de arma. Os investigadores gostariam de resolver o crime maior, por isso propõem a cada um dos bandidos, incomunicáveis entre si, um acordo: se testemunhar contra o outro na acusação mais grave, não será indiciado pelo porte ilegal.

A\B Leal Traíra
Leal 1\ 1 11\ 0
Traíra 0\11 10\10
Tabela de resultados
entre prisioneiros A e B.

Se os dois se recusarem a trair seus parceiros, cada um vai preso por 1 ano. Quem trai o parceiro leal sai livre, enquanto o parceiro vai preso por 11 anos. Se os dois concordarem em trair um ao outro, cada um vai preso por 10 anos. Cada um, agindo de forma racional e egoísta, terá como estratégia dominante trair seu parceiro, pois, independente do que o outro faça, o resultado é melhor para si mesmo: 0<1 e 10<11. A constatação surpreendente da Teoria de Jogos é que, nesse arranjo, bastante comum na vida real, se cada um seguir a estratégia racional e egoísta, traindo seu parceiro em benefício próprio, os resultado é o pior possível: o tempo total de prisão dos dois é de 20 anos (10+10), que é mais que 11, e muito mais que 2, que seria o menos indesejável do ponto de vista de ambos.

Da mesma maneira, as distribuições populares têm a percepção, possivelmente correta, de que adicionar Software não-Livre necessário para o funcionamento de certos dispositivos atrai usuários, ou de que não adicioná-lo os afugenta. Seguindo essa estratégia dominante, traem umas às outras, assim como a seus usuários, ajudando os fabricantes de hardware, que fazem o papel da polícia, a manter todos menos Livres: controlados, apáticos e até mesmo inconscientes de que estão traindo uns aos outros ao usar Software não-Livre.

O dilema dos prisioneiros, quando iterado, tem como melhor estratégia determinista conhecida a reciprocidade cooperativa: cooperar na primeira iteração, e a partir dali trair quando houver sido traído e cooperar quando houver recebido cooperação. É forte, mas nem sempre é vencedora: num meio em que a traição é comum, a cooperação inicial será uma perda irrecuperável. Ainda assim, a cooperação otimista ocasional pode quebrar um ciclo de traição múltipla e levar a um resultado muito melhor para todos: é um pequeno sacrifício invidivual em prol do bem comum.

De fato, a tragédia do rossio, ou do bem comum (commons), é uma situação em que a estratégia dominante para cada participante racional, egoísta e imediatista é abusar do recurso comum, até seu desastroso esgotamento. É evitável através de um compromisso confiável entre os participantes para preservar, no longo prazo, o recurso compartilhado, seja um pasto, uma fonte de água, a atmosfera, o planeta.

Lamentavelmente, não vejo entre as distribuições GNU+Linux mais populares e desenvolvedores principais do Linux qualquer intenção de estabelecer ou fazer cumprir esse tipo de compromisso, a fim de evitar a progressiva erosão das liberdades dos sistemas que desenvolvem sobre uma base comum, que vem ocorrendo por influência de fabricantes de hardware.

Cooperar para superar

Não havendo razão ou esperança de que as distribuições tomem essa iniciativa, resta a nós, usuários, alterar o equilíbrio do jogo. Se dermos preferência às distribuições comprometidamente Livres e ao hardware que funciona com elas, sinalizaremos tanto para as distribuições quanto para os fabricantes de hardware que o respeito ao usuário servirá aos próprios interesses deles.

Quanto mais gente fizer isso, maior será a preocupação dos fabricantes de hardware em respeitar seus clientes, pois isso aumentará suas vendas, e maior será a preocupação das distribuições em respeitar seus usuários, pois isso aumentará sua comunidade de colaboradores.

É óbvio que isso requer um baita esforço de educação e conscientização de todos. É também óbvio que, ao agirmos assim, de forma cooperativa, abriremos espaço para que alguns nos traiam e levem vantagem no processo, em detrimento de todos. Ainda assim, esse compromisso parece ser o que tem mais chances de levar a um resultado positivo: evitar a tragédia do bem comum.

Caso seus amigos traiam você e a comunidade, aceitando ou recomendando Software não-Livre, ou comprando hardware que o exija, não os traia de volta: explique por que é importante cooperarmos, não só para evitar a tragédia, mas para alcançar o respeito que merecemos enquanto humanos e usuários de software. Sugira aos amigos que adotem distribuições 100% Livres assim que possível e que, em sua próxima compra, procurem adquirir hardware que funcione adequadamente com elas. É através dessa cooperação que temos chance de alcançar o melhor resultado para todos.

G[e]nuíno pinguim religiosamente Livre,
de Guillaume Pasquet, baseado no tux original de Larry Ewing.

Referências

Copyright 2009 Alexandre Oliva

Cópia literal, distribuição e publicação da íntegra deste artigo são permitidas em qualquer meio, em todo o mundo, desde que sejam preservadas a nota de copyright, a URL oficial do documento e esta nota de permissão.

http://www.fsfla.org/svnwiki/blogs/lxo/pub/linux-libre

Publicado na edição #54, de maio de 2009, da [GNU/]Linux Magazine Brasil.


 

 

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